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5.1.13

Draco

- É uma lombra doida, não sei porque é tão massa. É a minha vida. Não sei porque é tão massa assim.

Pensa mais um tanto e só descobre a vontade que já sabia:

- É tipo assim, quando eu tiver morrendo me dá um cigarro!?

- ...


25.12.12

Travessia

Escorrendo memórias filamentosas de longas raízes-umbigo desde o chão daqui até esplanada além, vazando pra fora do plano.

Água viva inundando tudo. Hoje de mar e cascata, estrelas e pedras-corais. 

Do passado, lágrimas derramadas voltaram até antes de brotar e transmutaram em outra substância, caudalosa, quente e murmurante, adubando o que virá.

O chão sob o pé direito bambeia e corre pro centro em diagonal vertiginosa, o esquerdo gira em espiral sem fim. É agora: vomito ou voo. No lugar em que eu era aguardada, os dados escapam de suas mãos e rolam na sarjeta. Não chego, mas a sorte está do meu lado.

Na hora que acaba é quando explodem os fogos.


20.12.12

Colóquio

'Deus é mais.

Só deus sabe a minha hora.

São frases legais, não tô dramatizando'.

Disse, e ficamos pensando.


17.12.12

Clube do livro

Betoven volta e meia traz revistas cuidadosamente selecionadas com exatamente o que eu preciso perceber. 
Algumas vezes Ísquilo se fez de entregador. Com o tempo, gostou da brincadeira e agora também recorta sua própria seleção de periódicos, sempre rabiscados de figuras e letras desenhadas.
Aula de recepção das coisas que não se vê.
Nessa tarde, acomodados no jardim da Lebre de Março, Betoven insiste pra que eu fique com o livro que ele anda lendo, uma viagem fantástica. Não aceito, onde já se viu tirar história no meio do acontecido da mão de leitor? Haja karma, sai de mim. Digo que quando ele terminar e me desculpo adicionando um cordel sobre o lendário Pedro Malazarte na conversação.
Então Betoven, com ares de conspiração, reparte um segredo e revela sua função oculta: era ele o cara incumbido de perguntar, quer participar do clube do livro?
Só isso.
Assim, simples.
Fico surpresa por ficar surpresa.
Desde então faço parte oficialmente filiada.
E a alegria dos muitos multiplica com todos os outros que ainda estão por chegar.

(Depois, livro e cordel foram encontrar outros olhos e nem lembrei de perguntar o final. Mas sei que um dia reaparecem, se for o caso.)



14.12.12

Bebedores anônimos de maracujina

- Sossegue que ainda não é a hora.

- Sim sim, tô sabendo. Mas é que faz parte da preparação da personagem.

- ...

Siroco

Não sei quem viu primeiro: o menininho ou o avô. Ou eu.

Sei que ficamos os três hipnotizados e surpresos.

E felizes: não cai não.


11.12.12

Silêncio nas palavras


[Ou: "Não leia agora/ eu não quero testemunhas/ dos meus crimes gramaticais.” Climério Ferreira]


Por comodidade, ou preguiça, ou déficit de atenção, desde sempre anotando coisas pra não esquecer e pra lembrar. Muda de intensidade e de foco, mas sempre engrenagem importante no auto-ensino de (vi)ver.
Então, um dia, resolvi ser sem muleta. Deitei na grama ensolarada e fiquei olhando as palavras passarem ligeiras, descasadas com o pensar e sentir. Quando quase, já não era nada daquilo. Cansei e adormeci. Acordei esvaziada e perdida, fui deixando.
Agora, vontade de simples ficar no que não se vê, quis de novo, diferente. Não só registro dos dias ou se colocar pra fora, quase um jeito de amar.
Claro que me assustei. Tanto que empaquei de novo. Também por não querer assumir minha participação nos dias se esgotando velozes, por overdose de entender e ainda pelo velho costume das correntes que me atavam a uma outra que fui. 
Muito por medo do que acontece depois.
Sim sim, já tô careca de saber. 
Mas é que só agora mudou alguma coisa lá onde nascem os motivos: tentar não porque não existe outra saída mas pra abrir as asas, balançar os pés no abismo. 
Talvez ainda demore um tempo até acertar o passo, encontrar a melhor forma de. 
Parar de ensaiar a ida, enrolar sem poder, fingir de morta.
Ainda mais sabendo morto o paquiderme pré-histórico que fez casa sobre meu corpo, finalmente liberta dos esqueletos na bagagem que emperravam o movimento e a continuação da história.
Sempre pode ser que eu me perca. 
Mas sei também que se sobreviver saio lapidadinha: coisa fina.




7.12.12

Maria

Empoleirada na escada, limpa as persianas e oferece bolo de abacaxi. Bom também, mas melhor mesmo são os caldos, feitos com sorrisos e mãos cheias.

Com olhos sonhadores espia pela janela o azul e aguado dezembro. E aí ensina, sem perceber, a rima do ciclo das águas no cerrado:

'O ruim é que a chuva não tem paradeiro. Agora é o tempo inteiro, até janeiro. Se é ano bissexto, até fevereiro'.

Depois voltamos a esturricar.