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30.11.12

Jardineira

No sonho mastiguei folha de planta desconhecida sem pedir licença.

Dois milésimos de segundos oníricos depois o tempo se jogava pra frente e pra trás enquanto bebia um amortecimento gelado.

Tento anotar rapidamente as letras/números de contas e fórmulas, coloridas bailarinas aéreas, em pedacinho de papel amassado que guardo apertado na mão esquerda.

Ao despertar espio a palma, ansiosa pra rever a coordenada de futuro: folha em branco, vazia e seca como terra evaporada há séculos.

Nos sulcos arados pelo destino só li silêncio, e não soube mais o que tinha descoberto que era hora de plantar.


22.9.12

De gota em gota

(Bem-vinda!)

Depois da tempestade de areia já nem pensava mais nisso. Em pé, olhos calmos fitando o horizonte através do corpo quebrado e ressequido, dividida entre o entender e o se deixar sentir, num estado puro de tanto-faz-o-que-vier-o-pior-de-tudo-eu-já-passei.

Parte do deserto.

Lady of Storm do lado avesso.

Talvez por isso não vi os sinais e não acreditei muito quando o cheiro invadiu entradas e, denso, me achou na multidão. Nem tentei espiar pra conferir e continuei no programado, bem aproveitando a temperatura pré-fabricada de ambientes artificiais antes de encarar mais uma vez a secura do começo de noite.

Então o moço viu e me mostrou: 'tá chovendo!'

Riu quando eu contei que ia embora dançando na chuva mas bem sei que era a vontade secreta de muita gente na cidade, tal comoção geral se espalhou nos rostos agradecidos.

(No meu pensar, inclusive, me vi foi bem com a língua de fora tentando apagar o fogo de dentro.)

Mas como se completa o que já estava completo? Ter pressa e ao mesmo tempo adiar o agir só pra sonhar um pouco mais com como seria o momento assim que... então lembrei da lição do agora, fisguei a vontade e segurei o quando pela mão. Saímos um só.

Na segunda pisada fora, tiozinho de butuca chega fluente no dialeto dos que tudo vendem oferecendo guarda-chuva, desde quando esperava prevenido?, respondo não e ele entende, rimos os dois. Na verdade todo o mundo está rindo, vontades lavadas.

Nessa altura o pó já assentou nos caminhos recém brilhantes, mas os 3 pingos que caiam aqui e ali evaporavam antes de tocar na pele. Ando mais um trecho, frustrada, sensação vaga de ter caído na pegadinha do malandro.

Então chego na outra asa do pássaro e a festa vira verdade. Tanta alegria que nem me preocupo com as maquininhas e livros que carrego, o universo cuida. De tão agradecida da água, que lavou o sangue coagulado do dragão ferido, que saí do pensar. Só fui, inteira.

E estou. Noite feliz de jardineira: depois de 103 dias sem chover a água desce justamente depois de terminados os novos arranjos no paisagismo interior. Bom sinal, bom sinal. Cobras de luz no céu.



31.8.12

Literal

Ia atravessando a rua, olhos de sono, quando o cara na cadeira de rodas grita 'me ajudem!'. A minha insensibilidade me esbofeteia a cara e aperta meu estômago. Volto o trecho andado e pergunto:

- Quer atravessar?

Ele e o entregador de panfletos riem: não.

Retomo o caminho interrompido e ele grita outra vez:

- Cinquenta centavos, dez, qualquer coisa. Me ajudem por favor!

Ah... demoro eu.

23.8.12

Por las mañanas no me despierto


Tenho ressaca de viver, mas é só durante o dia. Começa a anoitecer e acorda alguma coisa dentro de mim que liga os pontos e sou. Acontece que sempre chega uma hora em o corpo pede pra dormir e eu concordo, e desconfio que é aí que perco as peças no labirinto da cachola. Depois, nem bem o sol explode na janela começa o imenso esforço pra colar as ideias de ontem no agora de hoje. 

Às vezes tento lembrar se sempre foi assim, ou pior ou melhor, mas sei que também é só outra maneira fácil de me perder e adiar. E já me sinto tão desviada do rumo, bem daquele mesmo que não sei qual, tão cansada de tatear no escuro que né. Eterna exausta, como é que se passa de fase?

Vai ver escondi a resposta tão bem que nem eu encontro mais, mil fechaduras. E quando penso que terminei de abrir todas, olho com mais atenção e descubro que era só mais outra casca-camada, como aquelas bonecas russas colocadas dentro umas das outras. Do jeito que a coisa vai, parece que o recheio não é mais do que grão de poeira cósmica. Ou, ainda, será o avesso do grão? Mesmo assim, sem ser visto a olho nu, é preciso estar aberto pra estar pleno, coração. E, com olhos ardidos, continuo debruçada no descortinar sem fim, a única possibilidade.

Mas o reforço às vezes aparece de onde menos se espera, das compartilhações no caminho. (A sua guerreira alivia o fardo da minha.) As histórias-lembranças-planos, o pranto e o riso, todos somos um. Por isso rasgo um pedaço da insolação da madrugada e grudo aqui, nessa tarde escaldante em que meus recentes olhos de coruja piscam pra poder ver e quase quase enxergam além da escuridão.

Tenho sono. E sonhos.  

Mas, por enquanto, basta respirar.



Lento corpo

- Tô feliz, muito feliz.

Disse e era verdade, respondendo o perguntado.

- Não parece, responde ele, olhos de avaliar energias.

É que o sorriso vinha de tão fundo, rompendo camadas paleolíticas, que ainda não chegara na boca.

13.8.12

Meu caminho pra Bras-ilha


Na primeira vez que­ vim só cheguei até Minas.

Vinha com mais um monte de gente, estudantes com a voz preparada pra lição de protestar nas decisões do país. Mas é terceiro mundo, o dinheiro é ralo e o sol na estrada é quente, e vontades de viver as mudanças nem sempre são forças mais poderosas que ônibus velhos que quebram e se perdem, que nunca chegam ao seu destino. Presos na Fronteira. Daí ficou uma vontade frustrada de nadar no espelho d’água da esplanada, com amigos de moicanos coloridos que conheceria quando chegasse, e uma promessa – com convicção de certeza – de um dia voltar.

Nada se aprende pelo caminho fácil.

Dali passou muito vento e muita água. Promessas e vontades foram esquecidas, morreram, mudaram. Percorri caminhos inteiros só pra me certificar que não levavam a lugar nenhum e só me distanciaram de onde pretendia chegar. Cansada, mas leve, ia voltando trecho andado reparando nos detalhes atenta pra não perder a entrada do portal escondido. E quem procura acha. E a entrada do portal eram quilômetros no deserto até chegar na outra porta, que é outra história.

Então, um outro dia, o destino me sopra mais uma vez pra essas bandas. Vim divida entre a curiosidade e o sofrimento do medo ainda indomado de avião (nunca ninguém pra segurar pela primeira vez a minha mão). Bate e volta. Sabia antecipada que o cronômetro apertado dos compromissos não deixaria espaço pra desbravamentos, mas o tempo bastava pra que olhasse no fundo do olho do pássaro. Olhei, mas só quem viu de verdade foi ele.

De começo a cidade já mostrou seus dentes e mistério em careta-sorriso-careta, seca e agreste, quase rude. Seu ar me esfolou como mil grãos de cacos de vidro invisível. Cansou meus olhos, grudou em minha pele, secou minha garganta e encheu de sertão meu cabelo. Gostei não. Por mim nunca mais nos veríamos: eu sei que você existe e você sabe de mim, nos encaramos desarmadas e cientes, sigamos nossos caminhos e fim.

Voltei pro todo dia de sempre e a esqueci. Sem dor, inclusive, do que ficou sem ver. Passa tempo-estrada-porteira até o momento iluminado em que quase soube com certeza qual seria o próximo passo, desconstruída calculava o que viria. Nesses tempos a cidade cinza se coloriu e me fez feliz. Redonda de tão, acomodada. Então a cidade pássaro chamou 3 vezes pelo meu nome secreto e todas as coisas mudaram de lugar.

Respondi, mas entender mesmo só depois. (E chega algum tempo em que se entende tudo?) Numa noite de terça-feira desembarquei com a vida numa única mala na terra do verão eterno direto pra pensão trash/clandestina achada na internet. No quarto minúsculo e sem janelas o mofo desceu pela parede esmagando minha garganta e peito, sufocando minhas certezas, trote de caloura. Perguntei pra parte de mim que sabe das coisas o que é que eu tava fazendo ali e não ouvi resposta. Que fazer quando a resposta é não ter resposta? Na cama estranha, torta e rangendo, pensei na vida que eu tinha largado e que não já não existia mais pra que pudesse voltar. Precisava mesmo deixar tudo pra trás pelo desconhecido? No meio do deserto senti frio, e a caminhada mal tinha começado.

Depois do cortiço mudei pro apertamento abençoado que me achou e que me faz feliz todos os dias, com rede na sala. Continuei com ritmo de acampamento, espartana, sem tv e sem espelho. E por muito tempo não me reconheci quando vi meu reflexo nas vidraças da vizinhança.

Foi quando me descobri quebrada e retorcida e entendi minha fuga pro planalto central do ser. Demorei, apreciando-entendendo-consertando tudo com cuidado, revivendo um certo jeito antigo de monja. Durante todo o tempo a aridez-sensação-certeza de deserto: o caminho interior que só se faz isolada, o trazer pro real o que já vivera em outras esferas. Tempos depois uma brasiliense me explica, em dia de profecias fartas, que quem encontra o silêncio da cidade o carrega pra onde vai. Que as pessoas que moraram aqui estão impregnadas de um silêncio tão antigo quanto o deserto, mas silêncio rico de imagens coloridas.

Acreditei. Mas só porque também vejo. Os horizontes por todo lado dão a sensação de algo que não termina, o céu toca o chão e a lonjura dos espaços guarda histórias de todos os cantos. O planejamento das coisas. As pessoas observam. E pelo olhar trazem naturalmente essa amplitude pra dentro. Brasília amplia a alma e afina a visão. Desenreda meus sentires e me força a encontrar respostas: decifra-me ou te devoro.

Mil e uma missões, curar a visão distorcida, a antena quebrada. Ver além de política e dinheiro, ver a vida que luta sob o sol. Demora mas chega o dia em que, e um dia não é nunca. Recuperar o que nunca tive: olhar de turista. A alegria absurda e deslumbrada por essa vida quente e pulsante, pelo que se vê e o que se esconde, pelo que se sente e é. Mesmo a feiúra que também existe. Tudo.

Até vencer a maior agonia nesta terra: a quase ausência de vento. Nascida e crescida na cidade dos ventos uivantes, lobos bravos feitos de ar correndo pelo céu das tardes frias, a ausência do barulho ininterrupto me ensurdeceu. Beirando o insuportável. Silêncio. Depois me ensinou a sentir as sutilezas das brisas invisíveis que mal movimentam o ar e que, dia após dia, depositam folhas na minha sala de estar. A delicadeza do verbo.

Comecei a vir anos atrás, mas a verdade é que só cheguei mesmo foi ontem, vestida de roxo. E cheguei consciente do meu coração disléxico, da memória de gigas insuficientes, da demora do entendimento e da necessidade das palavras-imagens-sons no meu autoensino/aprendizado de viver. É o que faço já.

Agora, sem sonhar com a partida, conserto um cabuloso déficit de atenção que impede meus pensamentos hiperativos de se fixarem nas coisas, de lembrar do importante no meio de toda enxurrada de informações. Expansão. (Re)Conhecimento do movimento das águas, das florestas invisíveis, pântanos drenados, do povo que sou. E das histórias que o vento virado que engoli cochicha nos meus ouvidos, só que ao contrário.

Vim, vi, vivi. No tempo certo estarei em outros lugares e sentirei saudades desses dias abafados, desse ar que lixa as arestas, dessa gente que me ensina tanto. Daqui levarei o silêncio e a paisagem, o primeiro fruto, a espera da chuva, a tarefa completada.

E eu. 


Aberta.


9.8.12

AnAlfabeta

Símbolos e códigos se embaralham e confundem.

Só entendo e apre(e)ndo o que sinto.

9.6.12

Lúcio



Na tarde de domingo que começa a acabar, almoço na feira olhando o movimento das coisas e tentando não pensar na segunda que já mastiga o tempo. 

Ele chega descalço e manchado de tinta, agarra minha atenção e obriga que eu desça do mundo das ideias. 

Avaliativo, dá uma filmada nas pessoas ao redor e acabo escolhida pra primeira. Vai puxando a cadeira e se aboletando como se fosse velho conhecido. Para-raios de, sempre.

Pensa tão rápido que na hora de soltar o som acaba se atrapalhando: as palavras se emaranham todas e as sílabas se repetem. Mas, como tudo que basta querer para que, lentamente a gente se entende. (Ou entendo eu.)

- Vim te convidar pra ver meu trabalho. Fica lá atrás, bloco E, 167.

E então conta pedaços de vida. Que já fez 6 exposições, logo logo faz a 7ª. Tem 16 anos e dali a alguns dias vai fazer aniversário. Que tem dois irmãos, uma de 19 e um de 23 anos, e sua mãe tem 53. 

Diz que começou a pintar com 2 anos. Mais tarde chegou o dia em que foi simples assim: saiu do colégio e pintou 14 quadros de uma só vez. Mas, sorrindo, confessa que se quiser pode pintar 100 mil.

- Só pinto abstrato.

Digo que mais tarde passo lá, ver sua obra. Conversamos mais um pouco e ele sai lépido e fagueiro como chegou, espalhando convites pras outras pessoas por onde passa. Aula de automarketing.

Quando encontro o lugar, ele exibe satisfeito a obra recém parida, estendida na grama, enorme. A mãe comenta que vai demorar a secar, que vão ter que esperar noite adentro.

Lúcio mostra seus outros quadros. Conta histórias enquanto apresenta todas suas tintas e seus pincéis, que organiza pra bagunçar só pra poder arrumar de novo. No fim revela um segredo e sorri maior: a sacola que guarda sua roupa de palhaço.


Despede-se com um abraço, colorido, e acena enquanto me afasto. Tchau amiga, diz, e o vento espalha na distância as palavras ainda inteiras. Tchau, amigo, vou pensando pelo
caminho recém tingido em technicolor.