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18.2.13

Crocs

- Ganho mais de três mil por mês, trabalho em casa, com pc. Agora, se eu tiver de chinelo sou vagabundo?
- ...

11.1.13

Lâmia


- Sabe o que quer dizer?

- Nem.

- Então pode pesquisar. Monstro da meteorologia grega, metade mulher, metade serpente.

- ...

5.1.13

Draco

- É uma lombra doida, não sei porque é tão massa. É a minha vida. Não sei porque é tão massa assim.

Pensa mais um tanto e só descobre a vontade que já sabia:

- É tipo assim, quando eu tiver morrendo me dá um cigarro!?

- ...


20.12.12

Colóquio

'Deus é mais.

Só deus sabe a minha hora.

São frases legais, não tô dramatizando'.

Disse, e ficamos pensando.


14.12.12

Siroco

Não sei quem viu primeiro: o menininho ou o avô. Ou eu.

Sei que ficamos os três hipnotizados e surpresos.

E felizes: não cai não.


7.12.12

Maria

Empoleirada na escada, limpa as persianas e oferece bolo de abacaxi. Bom também, mas melhor mesmo são os caldos, feitos com sorrisos e mãos cheias.

Com olhos sonhadores espia pela janela o azul e aguado dezembro. E aí ensina, sem perceber, a rima do ciclo das águas no cerrado:

'O ruim é que a chuva não tem paradeiro. Agora é o tempo inteiro, até janeiro. Se é ano bissexto, até fevereiro'.

Depois voltamos a esturricar. 



4.11.12

14.10.12

Dialética

- Um dia você vai aprender a viver. Você não merece aquilo que você vivia não. Mas acalma que agora é nóis. Vamo começa a se divertir, irritar até os safado do estrangeiro. Só não seja covarde!

- É muita droga pra poca idade.

- Se não tivesse combate não tinha droga. Do jeito que tá nunca vai acabar essa porra.

7.10.12

Alberto

Começou a trabalhar com couro ainda criança. Depois passou por várias outras funções e lugares, até RH de empresa, mas não era valorizado. 'Tenho capacidade, vou-me embora', disse ele pra aquela vida e voltou pra profissão primeira.

'Aqui ganho pouco mas eu sonho'.


31.8.12

Literal

Ia atravessando a rua, olhos de sono, quando o cara na cadeira de rodas grita 'me ajudem!'. A minha insensibilidade me esbofeteia a cara e aperta meu estômago. Volto o trecho andado e pergunto:

- Quer atravessar?

Ele e o entregador de panfletos riem: não.

Retomo o caminho interrompido e ele grita outra vez:

- Cinquenta centavos, dez, qualquer coisa. Me ajudem por favor!

Ah... demoro eu.

29.8.12

A chuva antes da água

Combinei uma aula de rap com um maluco da cidade logo ali, depois da pista, no campo de futeba.

- Nunca foi não?

Não. E vai ver foi por isso que distraída andei tanto que me perdi nos caminhos, quase sempre, e demorei até o campo-praça-quadra-parque-banco, deserta. Filtrada por entre galhos das árvores retorcidas, a luz da quase inteira e cheia lua azul do ano iluminando o caminho. Secura e calor, calor e secura.

Espero, mas já desconfiando que é o lugar errado. Volto o ido, contando as pessoas que passeiam com seus cachorros atravesso números e letras, e um quarteirão adiante descubro outra praça. Só que cheia de vida. Crianças correndo-caindo-chorando-levantando atrás da bola, mães e pais que observam e incentivam. 

A ironia: na fuga das crianças boleiras e esportistas é bem com elas que encontro, quase obrigação, e espanto. Alguns dos jogadores parecem ter aprendido a andar ainda ontem. Que coisa. País do futebol, dizem. 

Certeza que é o lugar errado. 

E já ia no meio da volta e meia quando dois moços me abordam perguntando se acho que este mundo pode sobreviver. Pronto: lá se perdeu minha aula de rap substituída por intensivo de preparação pro apocalipse. Argumentos e atores muito bem ensaiados (Jeová explica), citações e recortes grifados na bíblia devidamente aberta e lida pra provar. Pra provar o quê? Cientificamente, seu ponto de vista? A dificuldade de achar o ponto em comum. Ué. Somos iguais, não? 

Vai ver era o lugar certo.

Retorno e só aí, no descampado, reparo nas traves caídas.

E então, no café do meu quintal, folhas escritas decoram varais e pessoas começam a se juntar. O cantor miando esganiça Violeta Parra e, pelo avesso e decepcionante, consegue minha atenção. E os outros menestréis candangos de depois também. Música e poesia para marcar território. Assisto tudo sem óculos que é pra não cair em tentação. E testar meus olhos. 

Sabiá cantou no sertão, e ele só canta quando chove. O vento não balançou uma folha sequer mas rodou moinhos. 'Vi lagarta no casulo ganhar asas e voar, essas coisas são milagres que só não vê quem perdeu o dom de se admirar, tão certo como é um dia assim será'.

Que noite encharcada esta.

'Volver a ser de repente tan frágil como un segundo, volver a sentir profundo...'