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8.8.12

Daquele tempo de menino...

- Por isso que que eu virei drogado, porque queria ser criança pra sempre.
- ...

Ademar

Amanhece nublada a terra do verão eterno, mesmo assim o calor gruda nas dobras do corpo.

Trago na bolsa o sapato com crise de cor.

Digo bom dia e ele demora a responder, como se eu fosse vidro-visagem parada na sua frente, senhor do tempo.

E é no seu tempo que divide rememorações da vida enquanto espero as camadas assentarem. Conta que nasceu em Ouro Branco - Pernambuco, cidadezinha perto de Arco Verde. Já tem 53 anos de Bras-ilha, e no próximo mês volta pra antiga terra pela primeira vez, verificar se ainda tem algum parente vivo. 

Saudade? Sentiu nada. É que perdeu seus pais com 8 anos e aí ficou muito desgostoso da terra, 'o povo gera muita miséria, em época de política, como agora, se vende por um saco de feijão'. Também com 8 anos foi que começou a consertar sapatos, 'profissão de família, até as mulheres aprendem só de ver'.

Aí lembra da juventude, viola na praça. Juntava muita moça bonita, dava até medo!, e sorri malandro e largo sem dentes. Hoje o mundo mudou muito.

Satisfeito com a vida, confessa que já quis até ser rico. 'Achava que ia ser como no Egito', explica e eu sorrio. Mas depois descobriu que tem muitas drogas nesse negócio de riqueza e resolveu seguir por outra trilha.

- Vocês do Mato Grosso, Catarina, falam tão bonito... sotaque né? Eu acho. Não tem como, onde a gente nasce influencia a gente.

Isso mesmo, e a raiz que não se arranca. Papéis, folhas e poeira rodopiam ao nosso redor embalados por súbita e inesperada rajada. Mulheres seguram saias e vestidos, homens protegem os olhos.

- Vento gostoso né?

Eu acho, respondo feliz e um tantico saudosa. E recebo a verdade:

- Me deixa agoniado.



Disfarce

- Pra burro só falta as penas.
- ...

7.8.12

SCS

não consigo
sair destas palavras
setor comercial sul

em que banco eu pago
pra sair do
setor comercial sul

em quantas prestações
eu saio do
setor comercial sul

você quer 30%
do meu salário
pra me livrar do
setor comercial sul?

dois litros do meu sangue
pra me tirar do
setor comercial sul?

pra sair do
setor comercial sul
eu faço qualquer negócio

só não vendo a alma


(Nicolas Behr)

6.8.12

Segundis

No sol já a pino da manhã ele bebe uma cerveja no ponto de ônibus, ri sem dentes, conversa com amigos que mais ninguém vê.

Algumas filosofices respingam, a plateia grava nos celulares e ri junto da loucura da vida.

- Esse doido é muito doido.

20.7.12

Canção pra dois

Com sorriso no rosto, brincam de cantar pedaços de músicas. Ele lembra, feliz!, que tem um radinho na mochila: 

Quando deus te desenhou ele tava namorando... bbrrzz!... eu não existo longe de você e a solidão é o pior castigo... bbrrzz!

Então encontram Aquela, a que cantam inteira e a plenos pulmões. Talvez pra afastar a possibilidade do futuro, talvez por gostar da música, e talvez por toda outra tal vez que existir.

De mãos dadas: e agora?, que faço eu da vida sem você? Você não me ensinou a te esquecer...



18.7.12

Dia de cajá-manga

- Mamãe cadê Maria?

- Maria foi passear.

Os passeios de Maria fazem papai e mamãe chorar.

9.7.12

Quando o vento virou

Tudo calmo e igual no castelo das ideias que esperam o tempo de nascer.

Uma brisa morna, carregada de cheiros e imagens de outros lugares, ondula a saia das nutridoras de futuro e espalha lembranças de flores pelo ar. Insistente, enrosca em minhas pernas e me puxa pelo braço querendo mostrar a hora em que a semente quebra a casca. Resisto, preguiçosa de saber, feliz com o pouco que já vi.

Não sabia do perigo que espera os que se opõem, descubro atravessando.

Uma rajada brusca levanta poeira cósmica do chão e enche minha visão de cacos coloridos, sem dó. Pisco várias vezes, cega, enquanto meu corpo é sacudido por mão invisível. Quando consigo abrir os olhos me assusto: sobre minha cabeça tudo está suspenso e vivo. Dança enlouquecida das estações, meio dia e meia noite no mesmo céu de agora.

Boquiaberta observo enquanto palavras saem de mim, uma a uma, indo somar corpo à nuvem gigantesca que paira no céu. Depois das palavras perco as recordações, o que pensava saber e sentir, toda a história até aqui. Perco o corpo e perco o nome. A boca que já não tenho seca com o calor de mil desertos, meus pés áereos sobem para o tornado enquanto enxergo tudo por um olho que não pisca e não existe. Sentiria vertigens se ainda soubesse como.

Centrifugada em minha própria natureza. O que sobra depois que tudo foi removido? Algo rasga o estar, um relâmpago escorrega do centro flutuante em que pairo, o barulho só chega depois. Desço com eles mas continuo no alto, a massa incolor de tudo que se foi aquieta em seu carro-céu. E desaba.

Tudo inunda. Da água nasce um novo corpo, novas combinações dos mesmos elementos pelo avesso, mas com algo que não havia, um vento-alma forjado no fogo e grito do raio, centelha divina. Tudo mudado, viajante estelar perdida em chão de planeta desconhecido.

Lentamente começo a me mexer, acordando de sono milenar. De tão lúcida me sinto irreal. Volto da morte para vida nunca vivida, plena. 

Transfigurada.


Imaginagem: internet.com

1.7.12

Rádio Braza


Marca o compasso na caixa de fósforos enquanto gela a bunda na escadaria do bloco.

Noite clara, no suposto frio da terra do verão eterno, desenhos dançam animados nas sombras refletidas no chapiscado estourado do muro.

- É doido véi. Pra curtir o rap tem que ouvir a letra, entendeu? Tá ligado? Presta atenção na letra aí você não vai odiar rap, nem sendo lá do sul. Você vai amar rap. É igual samba, vai rimando assim e assim só que é um batidão: tum tundum tum.

- ...

9.6.12

Lúcio



Na tarde de domingo que começa a acabar, almoço na feira olhando o movimento das coisas e tentando não pensar na segunda que já mastiga o tempo. 

Ele chega descalço e manchado de tinta, agarra minha atenção e obriga que eu desça do mundo das ideias. 

Avaliativo, dá uma filmada nas pessoas ao redor e acabo escolhida pra primeira. Vai puxando a cadeira e se aboletando como se fosse velho conhecido. Para-raios de, sempre.

Pensa tão rápido que na hora de soltar o som acaba se atrapalhando: as palavras se emaranham todas e as sílabas se repetem. Mas, como tudo que basta querer para que, lentamente a gente se entende. (Ou entendo eu.)

- Vim te convidar pra ver meu trabalho. Fica lá atrás, bloco E, 167.

E então conta pedaços de vida. Que já fez 6 exposições, logo logo faz a 7ª. Tem 16 anos e dali a alguns dias vai fazer aniversário. Que tem dois irmãos, uma de 19 e um de 23 anos, e sua mãe tem 53. 

Diz que começou a pintar com 2 anos. Mais tarde chegou o dia em que foi simples assim: saiu do colégio e pintou 14 quadros de uma só vez. Mas, sorrindo, confessa que se quiser pode pintar 100 mil.

- Só pinto abstrato.

Digo que mais tarde passo lá, ver sua obra. Conversamos mais um pouco e ele sai lépido e fagueiro como chegou, espalhando convites pras outras pessoas por onde passa. Aula de automarketing.

Quando encontro o lugar, ele exibe satisfeito a obra recém parida, estendida na grama, enorme. A mãe comenta que vai demorar a secar, que vão ter que esperar noite adentro.

Lúcio mostra seus outros quadros. Conta histórias enquanto apresenta todas suas tintas e seus pincéis, que organiza pra bagunçar só pra poder arrumar de novo. No fim revela um segredo e sorri maior: a sacola que guarda sua roupa de palhaço.


Despede-se com um abraço, colorido, e acena enquanto me afasto. Tchau amiga, diz, e o vento espalha na distância as palavras ainda inteiras. Tchau, amigo, vou pensando pelo
caminho recém tingido em technicolor.

5.6.12

Estudo dos ventos

Na mansão de Iansã, hóspede dos ventos. A espera é o aprendizado da falta de medo.

Voltar os caminhos andados recuperando coisas soterradas pela areia do tempo, inacabadas.

É que estou cansada de fugir.

E é tanta gente se convencendo que é inútil desde o início que fica nublado saber o que não se precisa e só se pensa que precisa, tão mais fácil desistir. Tempo que se fecha sem chover.

Sem culpas e com poucas desculpas. Precisava fazer uma escolha e escolhi a mim. Quando não se desiste é porque venceu.

Além das falsas sombras, completa a busca pela intuição, da linha entre todos os opostos brota alma nova e pronta para a guerra (espada de fogo conquistada), fiel à paixão que a move. Espiralando em ventania magnética, dança iluminada, nascida da tormenta, livre e forte para o que há de vir.

E com cabelos de vento.

1.4.12

Saturada

- Vou te deixar loca.

- Hoje em dia já cruzei a ponte: só sabedoria.

- Primero de abril?

31.3.12

Neon


Nos cruzamos sob o sol ofuscante das tardes incendiárias.

Ele conta que chegou ainda ontem na cidade, que tava em Belém.

Filho de mãe hippie, desde cedo morou na rua, saiu pra conhecer o mundo. Nasceu em São Luís do Maranhão mas já desceu até São Paulo, desbravando.

Mas pela Bras-ilha é a primeira vez.

(Diz que tem 19 anos mas parece ter bem menos, uma penugem fina de bigode. Desconfio que o que parece é.)

Levo um sorriso de lembrança e uma flor de lótus. E uma 'pulseirinha do reggae' de brinde.

E sorte.

Pra nós dois.